Machu Picchu – II

PONTE EM CONSTRUÇÃO

Próximo a Santa Cruz, havia uma ponte em construção. Esperávamos com o motor ligado quando um brasileiro vestido de mecânico bateu em minhas costas e disse: “pode desligar que vai demorar”. Tivemos que esperar uns quarenta minutos até que a pista fosse liberada. Aproveitamos para descansar.

Ponte Perigosa

A tal ponte era um perigo para motos. Havia várias tábuas que corria a ponte no sentido do tráfego. O pior é que havia umas brechas enormes entre elas. Deixar o pneu cair ali seria queda na certa.

ESTRADA PARA COCHABAMBA

Cochabamba é a terceira maior cidade da Bolívia e está situada a 2500 metros de altitude. Tem cerca de 500.000 habitantes e a economia baseada na agricultura. Bananas e gasolina, é o que vendia uma barraquinha improvisada na beira da estrada. Ali, comemos algumas bananas e alimentamos nossas máquinas com gasolina boliviana caseira. A moça jurou que era pura.

“AREA DE DERRUMBLES

“Area de Derrumbles” era o que avisavam as placas nas montanhas da Bolívia. Aquela região é geologicamente muito instável. Na rodovia para Cochabamba, uma grande queda de barreira (derrumble) levou um pedaço da estrada ladeira abaixo. Formou-se um engarrafamento gigantesco. Os veículos que chegavam não podiam passar nem voltar,pois uma grande fila se formava atrás rapidamente atrás deles. Quando chegamos no local, tivemos que passar as motos por entre as pessoas, carros, caminhões; beirando precipícios até chegar no local do desabamento. O exército deixou que passássemos, já que os tratores já haviam consertado parte do desabamento. Dali ainda faltava transpor outro oceano de pessoas, carros e caminhões. Chegamos ao outro lado exaustos. Deilson estava tão cansado que nem percebeu a inclinação do terreno ao estacionar a moto. Não deu outra: a moto foi para o chão. Graças a Deus, nada quebrou.

COM A CABEÇA NAS NUVENS E OS PÉS TAMBÉM

Depois de Cochabamba, nosso destino era a capital da Bolívia, La paz. Já passava da hora de trocar o óleo das motos. Também precisávamos de um pneu traseiro para a moto do Deilson. Nesse trecho, começamos a subir a cordilheira. Fazia muito frio, mas a paisagem era deslumbrante. Apesar de a estrada ser perigosa paramos em alguns pontos para registrar o que mil palavras não explicam. Antes da viagem, vários colegas deram receitas de como amenizar os efeitos da altitude nas motocicletas. Seguimos as dicas, mas nada adiantou. Minha moto não passava dos 60 km/h. Falhava muito. Nas subidas mais íngremes, ela pedia primeira marcha. Nessas condições o consumo de gasolina aumentava uns 40%. O carburador, com falta de ar, dava tiros e expelia uma fumaça negra nas reduzidas.

CARRETERA DE TIERRA

Carretera é estrada, em espanhol. Tierra é fácil de traduzir. Dos 9000 km que rodamos, os 200 km que ainda não foram pavimentados, entre Corumba – MS e Santa Cruz de La Sierra, foram dos mais difíceis. Há trechos em que é possível andar a 100 por hora, noutros é preciso ir devagar para escolher bem o chão. A paisagem é de tirar o fôlego. Algumas vezes paramos só para ouvir o barulho característico da floresta. Mas foi nessa estrada, quando desenvolvíamos alta velocidade, em um desnível no chão, que a moto derrapou o pneu direito e traseiro, fazendo-me sentir aquele frio na espinha. Foi sorte eu não ter caído. Também foi ali que não consegui desviar de uma pedra. O impacto amassou a roda dianteira, mas não estragou o pneu – minha sorte. O estrago desalinhou a moto e provocou uma pequena vibração na dianteira, quando em velocidade, mas foi possível rodar com ele durante o resto do percurso.

UMA LUZ NO FIM DO TUNEL

Algo muito estranho aconteceu nesse túnel. Se algum leitor souber a explicação, ficarei muito grato em receber um email do expert. Aconteceu o seguinte: quando entramos no túnel, a iluminação artificial estava apagada a poucos metros da entrada. A visibilidade ficou zero. Meu primeiro impulso foi abrir a viseira; em seguida liguei o farol alto, retornei para a luz baixa. Nada. Tive medo de colidir com a parede do túnel. A situação ficou assim por alguns segundo até que apareceu a saída do túnel e pude ver a faixa do asfalto novamente. O Deilson revelou que teve a mesma experiência ao entrar no túnel. Fica aí o enigma.

SUBINDO A CORDILHEIRA

A 4.100 metros acima do nível do mar, eu ainda não sentia os tão falados efeitos da altitude. O Deilson já reclamava de falta de ar. Depois, percebi que estava fazendo muito esforço em pequenos movimentos. Era o começo dos sintomas.

LA CUMBRE (o cume)

Cumbre, em espanhol, é o ponto mais alto de uma região. La Cumbre é uma cidade situada a uns 100 km de La Paz. Naquela região, a 4500 metros eu me sentia bem. Não posso dizer o mesmo da moto. Ela falhava muito. Nas subidas, não passava dos 60 km/h. Em alguns pontos, ela pedia primeira marcha. Tentamos regular o carburador desenroscando um pouco o parafuso que regula a entrada de ar. Contudo, a medida não teve efeito. Soube depois que a única medida eficiente é trocar o giclê. Tive oportunidade de fazer a troca em La Paz, mas fiquei desconfiado da perícia do mecânico.

O MAL DA ALTITUDE

Nossa intenção era rodar até La Paz, mas a noite já havia escurecido toda a estrada e uma forte chuva começava. Para piorar, eu sentia uma leve, mas constante dor de cabeça. O jeito foi procurar um lugar para dormir em La Cumbre mesmo, encontramos um alojamento. Não era nenhum 5 estrelas, mas como estávamos no limite do cansaço, resolvemos ficar por ali. Depois de tomar um banho e lavar algumas peças de roupa, caímos na cama. Apesar do frio intenso daquela noite, acordei pouco depois com muito calor. Meu coração batia aceleradamente. Eu respirava com dificuldade. Sabia que uma forma de resolver aquilo seria descer a montanha, mas seria inviável. Tive saudades da minha cama que fica somente a 1200 metros de altitude.

A capital da Bolívia fica dentro de um vale. De cima da via de acesso, dá pra vera cidade inteira. Depois de muito procurar, encontramos uma oficina de moto que vendia peças Honda. Ali solicitamos a limpeza dos filtros de ar, trocas de óleo e lubrificação da corrente. Óleo específico para moto é desconhecido ali. O jeito foi usar óleo de carro mesmo. Na oficina encontramos um aventureiro que estava indo para Copiapó – Chile, para ver o Paris-Dacar. Cogitamos em incluir o evento no nosso roteiro, mas Copíapó fica muito ao sul do Chile, não seria possível.

O LAGO TITICACA

O fabuloso lago Titicaca tem 8300 Km² e é formado por mais de 25 rios. Ele possui 41 ilhas, algumas densamente povoadas. Já era tarde quando saímos de La Paz, mas queríamos passar a noite em um hotel às margens do Titicaca. Sem dificuldade, encontramos um bom hotel, por um bom preço. O estranho é que éramos os únicos hospedes naquele dia. Deilson apelidou o local de hotel fantasma. Ficamos por ali, tomando umas cerveja e curtindo o visual do entardecer. No dia seguinte, viajamos às margens do lago por muitas horas. Paramos diversas vezes para fotografar as belezas naturais da região.

CHAME O LADRÃO!

Quem viaja de carro pela América do Sul deve estar preparado para os assaltos que sofrerá. Não estou falando de ladrões comuns, existentes em toda parte. Falo dos ladrões fardados. Eles inventam irregularidades para tirar dinheiro dos turistas. Na fronteira entre Bolívia e Peru, fomos acusados de contrabandear (nossas) motos e de invasão de fronteira. Pelo menos não existe burocracia – a multa é paga na hora, direto para os pilantras. No mesmo dia, quando deixávamos a cidade de Puno – Peru tive que doar mais R$ 160,00 para os bandidos fardados em uma barreira, mesmo estando com a documentação correta. Dos 5 países que cruzamos, Bolívia, Peru e Paraguai são destaque nessa vergonha. Em casos como esse, pouco adianta discutir. Como diria Chico Buarque: Chame o ladrão.

COMPANHEIROS DE AVENTURA

Depois da péssima experiência os policiais, decidimos domiríamos em Cuzco. Ainda faltava uns 200 quilômetros. Já era noite, quando encontramos na estrada os aventureiros Gilles e Soren. Gilles é mexicano e e pilotava uma moto BMW. Soren, americano e conduzia uma moto tipo trail, aparentemente de 250 cilindradas. Os dois, muito descolados, iniciaram suas jornadas sozinhos e rodavam juntos, depois de se encontrarem. Eles sugeriram que parássemos na próxima cidade, visto que era Cuzco ainda estava muito longe. Concordamos. Ao chegar na cidade, deixamos as coisas num hotel e fomos tomar umas cervejas. Quando voltamos ao hotel para dormir, descobri que o chuveiro era frio. Não dava para acreditar, um lugar frio como aquele e não havia chuveiro com agua caliente. O jeito foi tomar um banho de gato.

A DREAM COME TRUE

Quando chegamos à Plaza de Armas e estacionamos nossas motos em frente à Catedral, senti que meu sonho estava se realizando. Cuzco foi a cidade mais bonita que vi em toda a viagem. Encontra-se ali uma boa rede de comércio e serviços. Como já passava das 13 horas, sugeri que procurássemos um restaurante. Para nossa surpresa, Gilles e Soren disseram que almoçariam ali mesmo. Soren Tirou uma cebola do alforje, Gilles pegou uns tomates e um pão, resolveram a questão. Foi ali que nos separamos. Eles queriam ir para Olaitaitambo, cidade a 70 km. Nós ficaríamos em Cuzco, pois era preciso encontrar um bom mapa do Peru e sacar dinheiro, visto que pouco restava dos mil dólares que levamos. Combinamos de nos encontrar novamente no dia seguinte na Plaza de Armas, depois da visita a Machu Picchu, mas, infelizmente, não deu certo.

ESTRADASPERIGOSAS

Uma vez em Cuzco, procuramos nos informar sobre a melhor forma de ir a Machu Picchu. Uma moça, a simpática Kátia, nos abordou na Plaza de Armas e nos apresentou um pacote que incluía um trecho de van e outro de trem, mais almoço e café da manhã, por 120 dólares. Pesquisamos alternativas, mas não conseguimos encontrar em tempo outra melhor, já que queríamos ir no dia seguinte. Restou-nos comprar o pacote. Saímos de Cuzco no dia seguinte. Às 7 da manhã, tomamos a van e nela passamos pelas seguintes cidades: Onayara (57 km), Olaitaitambo (76 km), Santa Tereza (125 km) e Santa Maria (162 km de cusco). De Santa Maria a Aguas Calientes, a viagem de trem dura uns 30 minutos. Sou cabra macho, mas tive muito medo nos 162 km percorrido de van. A estrada é perigosíssima. Há muitas curvas fechadas numa altitude acima das nuvens. Também há muitos deslizamentos de terra e pedra. O motorista, com medo de perder o trem, corria muito. Andar de moto é bem mais seguro.

AGUAS CALIENTES

Chegamos a Aguas Calientes, uma pequena vila no pé das montanhas, por volta das 18 horas. Para quem quer conhecer bem Machu Picchu, a melhor opção é se hospedar por ali. É possível encontrar bons restaurantes e hotéis. Para quem gosta de bugigangas, a feirinha de lá é um prato cheio. Depois de dar umas voltas para conhecer o lugar, procuramos um barzinho para tomar uma Cusquenha, cerveja mais apreciada na região. Lá encontramos alguns brasileiros, dos quais destaco a simpática Marta, carioca da gema, e dois americanos que conhecemos na van. O lugar parecia uma torre de Babel. Nada sei de espanhol, mas consigo me expressar em inglês. Ficamos no bar até meia noite. Às quatro da manhã, deveríamos iniciar a subida da montanha

6 respostas a Machu Picchu – II

  1. gilberto disse:

    meu que maluca essa viagem, bem legal

  2. sergio disse:

    parabéns pela aventura, vcs são muito corajosos.
    e quanto a luz no túnel, este fato é normal, já que a iris dos nossos olhos demoram um pouco a se aclimatar com a diferença de luz, (algo assim como quando agente recebe um flash na cara
    os pilotos de formula 1 tem uma tética que é alguns segundos antes de entrar em um tunel eles fecham um de seus olhos e depois que entram, eles trocam de olho fechado, assim o que fechou antes de entrar no tunel, já se adaptou a pouc luz.

  3. delsonc disse:

    Gilberto,

    Minha próxima aventura será atravessar a transamazônica em 2011. Vamos nessa?

  4. Oliveira disse:

    Delson,,

    estou lendo sua tragetória, como se lesse um livro de aventura,valeu memo

    ass oliveira

  5. dubinho disse:

    Rapaz, já viajei de moto diversas vezes do Rio de Janeiro até Fortaleza. Várias viagens pelo Nordeste, mas aventura igual a esta de voces. Deve ser impar!
    Parabens!!!

  6. delsonc disse:

    Sem dúvida. Dificilmente conseguirei fazer outra viagem como aquela. Já planejo, para um futuro próximo, umas viagens dentro do Brasil. Quem tem espírito aventureiro nunca conseque parar de se arriscar. Obrigado pela deferência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>